Hipertensão e diabetes são condições muito comuns entre pessoas que precisam de cirurgia. Ter uma delas não significa automaticamente que a cirurgia de hérnia esteja proibida. Também não existe um único número de pressão, glicemia ou hemoglobina glicada que funcione como “senha universal” para autorizar ou cancelar uma operação.

A avaliação pré-operatória procura entender o risco global, identificar descompensações corrigíveis e planejar anestesia, medicações, jejum e cuidados do pós-operatório.

Pressão alta: por que 140/90 não é um corte de cancelamento?

Metas usadas para diagnosticar e tratar hipertensão ao longo dos anos não são iguais aos limites utilizados para decidir se uma cirurgia eletiva pode prosseguir naquele dia.

A diretriz perioperatória britânica atualizada em 2026 deixa essa diferença explícita. Uma leitura isolada acima de uma meta ambulatorial não deve ser transformada automaticamente em cancelamento. A decisão depende da magnitude da elevação, repetição adequada da medida, presença de sintomas, lesão de órgão-alvo, tipo de cirurgia e avaliação anestésica.

Isso também significa que alguém com pressão aparentemente “boa” não recebe garantia de risco zero. O contexto cardiovascular completo continua importante.

O que costuma ser revisto na hipertensão?

A equipe pode avaliar medidas recentes e qualidade da aferição; medicações em uso e adesão; sintomas ou sinais de doença cardiovascular relevante; função renal e outras comorbidades; risco e porte do procedimento; e plano para os medicamentos no dia da cirurgia.

Nem todo paciente hipertenso precisa automaticamente de cardiologista, ecocardiograma ou teste de esforço. Exames complementares são solicitados quando podem mudar a conduta.

E o diabetes?

Diabetes também exige planejamento, mas não é corretamente resumido como “HbA1c abaixo de X = pode operar”. Diretrizes de cuidado perioperatório recomendam olhar o controle glicêmico recente, complicações do diabetes, tipo de tratamento, risco de hipoglicemia, função renal, urgência e porte da cirurgia.

Quando o controle está muito distante do desejado e a operação é eletiva, pode existir benefício em otimizar o quadro antes do procedimento. Em outras situações, adiar pode trazer mais prejuízo do que benefício. A decisão é individualizada.

Por que as medicações precisam ser revisadas?

Alguns medicamentos usados para diabetes exigem ajustes específicos no período perioperatório. Insulinas, sulfonilureias, metformina e inibidores de SGLT2, por exemplo, têm planos diferentes conforme o procedimento e a situação clínica.

Por isso, não é seguro copiar a orientação de outro paciente ou suspender todos os remédios por conta própria. A equipe deve fornecer instruções específicas para o dia anterior e o dia da cirurgia.

Quais exames são necessários?

Não existe uma bateria única para todos. A necessidade de hemograma, função renal, eletrólitos, ECG ou outros exames depende da idade, doenças associadas, medicações, porte cirúrgico e avaliação clínica.

O mesmo vale para a avaliação cardiológica: ela deve responder a uma pergunta clínica, não ser apenas uma etapa burocrática automática.

Quando a cirurgia pode ser adiada para otimização?

O adiamento pode ser considerado quando existe descompensação relevante que aumenta o risco e pode ser corrigida com benefício real antes de uma operação eletiva. O ponto é que a decisão não nasce de um número isolado, mas da relação entre risco atual, possibilidade de otimização e necessidade da cirurgia.

Como se preparar para a consulta pré-operatória?

Leve lista atualizada de todos os medicamentos e doses; registros recentes de pressão, quando disponíveis; exames recentes relacionados ao diabetes e função renal; histórico de eventos cardiovasculares, internações e alergias; e informação sobre anticoagulantes, antiagregantes ou medicamentos injetáveis para diabetes/obesidade.

Em resumo

Pressão alta e diabetes podem ser compatíveis com cirurgia de hérnia, desde que o risco seja avaliado e as condições estejam manejadas de forma apropriada. O objetivo do pré-operatório é reduzir risco de maneira racional — não criar uma falsa sensação de segurança a partir de um único valor.

Referências essenciais

  • Association of Anaesthetists; British and Irish Hypertension Society. Measurement and management of adult blood pressure in the peri-operative period: updated guidelines. Anaesthesia. 2026. DOI 10.1111/anae.70082.
  • Centre for Perioperative Care; Diabetes UK. Guideline for Perioperative Care for People with Diabetes Mellitus Undergoing Elective and Emergency Surgery. Atualização 2023.